Noturnos

(reflexos da memória)

Maria do Carmo Freitas
Belo Horizonte, abril/2006

Tenho acompanhado a trajetória artística de Humberto Guimarães desde a época dos seus desenhos de “fundos de quintal”, onde insetos e entulhos eram poeticamente feitos a bico de pena, tinta ecoline e aquarela. Também as ruas de Sabará estavam sempre presentes, com suas casas e crianças, mostrando um mundo lúdico e atemporal. Seu trabalho sempre me inspirou.

As ilustrações de livros também eram voltadas para este universo interiorano, lírico e bem brasileiro: não havia bonecos de neve, macieiras e pinheiros, tão presentes nas ilustrações de livros infantis estrangeiros. Em seu lugar apareciam burrinhos, montanhas de Minas e toda uma série de elementos que identificam a nossa paisagem e a nossa cultura. Foi esta a sua grande contribuição: mostrar que modelos importados não atendem ao nosso leitor, que espera encontrar nas ilustrações e nos livros reflexos da sua vivência pessoal. Foi importante a sua contribuição para a ilustração de livros infantis em Minas Gerais por ter apontado estes caminhos para toda uma geração de ilustradores mais jovens que foram beber na sua fonte.

Muitos anos se passaram, com encontros eventuais, até que Humberto veio, no seu momento de maturidade artística e pessoal, com a delicadeza que lhe é peculiar, cursar o Mestrado em Artes Visuais na Escola de Belas Artes da UFMG. Com muita alegria fiz parte da banca de defesa de dissertação deste grande artista, com uma obra consolidada, por quem tenho o maior respeito e admiração.

Volto agora à sua dissertação, já que ela é inteiramente centrada no seu projeto artístico e nos esclarece muitos pontos importantes do seu pensamento e da sua obra. Nela surgem reflexões sobre vivências do artista, do professor, do ilustrador, e na sua abordagem fica claro que são partes da mesma experiência artística que se completam.

Retomo aqui partes do texto que produzi na época sob o impacto desta leitura. A relação arte/vida no seu trabalho é muito estreita e isto transparece no texto e no desenho, que transforma-se, assim, num processo de auto-conhecimento, tornando-se difícil, nesse contexto, desvincular o seu processo de criação do seu processo de viver. Ele próprio coloca: “a investigação do desenho como paralela à investigação da vida”, o próprio trabalho de artista tomado como sintonia de existência, de vida. A sua fidelidade e o seu amor ao desenho transparecem tanto no texto quanto no caderno de imagens que o acompanha, transmitindo uma sensação de sinceridade e lucidez que remete aos textos dos grandes artistas como KIee, Kandinski, Dubuffet, que são, aliás, importantes referências no seu trabalho.

É o memorial de um artista, um texto “escriturai”, no sentido barthesiano: é antes de tudo o relato de uma experiência de vida, com todas as suas dúvidas e descobertas. É assim, portanto, que li e leio este texto: como o relato de uma vida dedicada ao desenho. “Reflexos da memória: do desenho”, são lampejos de lembranças que brotam e se transformam em texto. Vejo que muitos pontos importantes do seu processo de criação foram ali discutidos, embasados numa bibliografia que parece composta por aqueles livros especiais que nos acompanham por toda a vida e que se tornam tão fundamentais que nós os sabemos quase de cor. Aponto aqui aqueles que julgo mais pertinentes, refletindo sobre eles.

Reflexos da memória: do desenho

Ao refletir sobre o desenho, Humberto explora o conceito de “vazio”, que remete ao Budismo (Sunyata/Anatta). Ele explica que busca uma simplificação no desenho que “pode estar infinitamente ligada ao incompleto, a esse vazio que nos toca pela sua ausência ou pela sua presença inacabada”. Relaciona o inacabado a: “essa plenitude que possa vir nos mostrar o que separa aparentemente o som do silêncio, a música do ruído, a poesia e o desenho”, mostrando como no Budismo, que o vazio não é o “nada”. Na doutrina do Sunyata ou do Vazio no Budismo Mahaiana o vazio não é um nada branco ou uma ausência de qualidades. Apesar de ser um estado de ser indescritível, o vazio é a potencialidade total, que dá nascimento a todas as formas.

‘GUIMARÃES, Humberto Ricardo. Reflexos da memória: do desenho. Belo Horizonte: Escola de Belas Artes da UFMG, 200 . Dissertação de Mestrado em Artes Visuais (Área de concentração: Arte e Tecnologia da Imagem).

A ideia de que as oposições não se excluem, mas na verdade se completam, também é explorada por Humberto, remetendo ao I Ching, ou Livro das Mutações. 01 Ching vê o universo como um sistema natural e coordenado no qual o processo de mutação nunca cessa. O conceito de YineYang, presente no I Ching, é a expressão de dualidade (oposição). Esse fenômeno da dualidade é representado por um círculo com uma linha curva dividindo as cores preta e branca. Cada cor tem nela um pequeno ponto da cor oposta. Isso pode ser comparado a peixes nadando constantemente uns atrás dos outros, e representa o estado de constante mutação. Esta imagem me acompanhou todo durante a leitura da dissertação, já que as oposições que se completam são exploradas várias vezes no texto: leveza e peso, densidade e clareza, vazio e cheio, transparência e opacidade, som e silêncio, acaso previsível. Humberto diz: “Desenho limiar dos limites de luzes e Trevas entre ver o não visto o Findar inacabado na superfície do papel”.

O artista explica a impossibilidade de, algumas vezes, acabar o desenho no momento. É pertinente, pois, ressaltar a importância do “inacabado” no seu trabalho: “o desenho requer o inacabado”, nas suas palavras. É como se ele falasse de uma constante busca, um diálogo com o desenho, que nunca termina. Como o escritor Alberto Moravia que conta que: “sempre fica com a impressão de que, aperfeiçoando os livros, poderia torná-los melhores”. Porém ele diz: “Mas também é verdade que nunca se sabe quando o aperfeiçoamento deve parar”. E completa: “Provavelmente o segredo de uma escrita bem feita consiste em saber deixá-la, em tempo, imperfeita. Aquela imperfeição acaba se demonstrando, em seguida, o máximo possível de perfeição”. Picasso, por sua vez, fez uma espécie de apologia do inacabamento: “Não gosto nunca de concluir um quadro. É muito mais fácil terminá-lo do que deixá-lo inacabado. Quando um museu estava expondo um de meus quadros, pedi que colocassem uma plaqueta ao lado, dizendo: ‘Não toque, pintura viva1”. Assim, o trabalho criador pode ser visto quase sempre, como um gesto inacabado.

Noturnos

A relação dos desenhos de Humberto com a música, que retorna agora na presente exposição, já se colocava no caderno de desenhos que acompanhava sua dissertação e muito antes dele. A partir de uma referência explícita à partitura musical, surgem outras que a complementam, aproximando seu trabalho mais uma vez de Klee e Kandinski.

Com sentido sinestésico Humberto explica que: “Ver um desenho também é escutar as impressões que essa imagem nos causa através deste olhar, aproximando-nos de uma percepção sonora, ou mesmo de um ruído”. Além de “ruído”, ele se refere ao desenho usando termos como “dissonância”, isso sem mencionar “composição”, “ritmo”, que são termos comuns às artes plásticas e à música. Refere-se, ainda, ao “Noturno” como tema de alguns trabalhos, citando Chopin, apesar de explicar que os desenhos não tem qualquer relação com a música deste autor. Humberto explica o uso da partitura musical ligada à sua experiência com o piano e o violão, uma atividade interrompida, inacabada. Nesse ponto introduza relações estabelecidas entre o seu trabalho e a escrita, mostrando como se dá o surgimento do texto como imagem no seu trabalho.

Existe uma importante relação entre desenho e escrita na obra de Humberto Guimarães, já que o texto, a letra, são constantes nos seus trabalhos. Falar em “poesia visual” reduz seu desenho, portanto busco outra maneira de abordá-lo. Penso que Anne-Marie Christin nos dá uma chave para esse entendimento, já que a “poesia plástica” brota do trabalho de Humberto, como: “a ‘poesia plástica’ parecia nascer da própria superfície da tela” nas pinturas de Edouard Manet, nas palavras desta autora. É, portanto, um pensamento poético que permeia todo o seu trabalho, incluindo o texto da dissertação salpicado de pequenos hai-kais, que refletem poeticamente sobre os conceitos abordados.

É possível, portanto, fazer um paralelo entre seu processo de criação e a escrita. Ele fala de “repetição”, de “recomeço”, de “origem”. Pode-se comparar o seu processo de trabalho (de desenho) ao processo da escrita, na qual são utilizados sempre os mesmos caracteres, sinais e sintaxe na produção de novos textos. Também Humberto, no seu desenho, utiliza a linha, o ponto, a mancha, o traço, os signos, as formas, as letras, a “sintaxe” do desenho, para produzir obras “novas”.

A ideia da busca da “origem” remete a Maurice Blanchot, que comenta a respeito de Mallarmé:
“parece que a experiência pessoal de Mallarmé começa no momento em que ele passa da consideração da obra feita […] para a preocupação mediante a qual a obra passa a ser a busca de sua origem e quer identificar-se com a sua origem, ‘visão horrível de uma obra pura’. Aí está sua profundidade, aí a preocupação que envolve para ele, ‘o ato só de escrever”.

Penso que a “busca da origem” no desenho de Humberto remete ao “ato só de desenhar”. A linguagem do artista plástico se torna cada vez mais uma fala poética: “nela, ninguém fala e o que fala não é ninguém, mas parece que somente a fala ‘se fala'”. Não é o artista quem “fala”, “mas é a linguagem que se fala, a linguagem como obra e a obra da linguagem”. Assim, o artista toma consciência do poético na arte, assumindo-o no seu processo de criação. Um exemplo disso é quando Humberto cita os contrastes, já mencionados anteriormente, nos seus desenhos (vertical e horizontal, leveza e peso, densidade e clareza, vazio e cheio, transparência e opacidade) falando da: “dificuldade em entendê-los e aceitá-los no exato momento de sua ocorrência, de sua execução”. É como se o artista “recebesse” a obra, numa espécie de co-autoria, como se a própria obra tivesse vida própria e ditasse o caminho. Ele explica que, por vezes: “a solução do desenho não é dada por nós, mas sim, pelo ato de desenhar, isto é, pelo próprio desenho”, mostrando sua proximidade com o pensamento de Blanchot.

Humberto desenvolve ainda considerações sobre o ato de desenhar, os materiais utilizados, relações forma/fundo etc, que remetem £ um plano de ensino do desenho. Mostram o professor interessado em sensibilizar o aluno para o trabalho com o desenho e com tudo aquilo que aí está envolvido. É nesse processo de sensibilização que aparece a importância do professor, mostrando, desvendando ao aluno/aprendiz o; meandros e as sutilezas do ato de pensar o desenho. Para Humberto não existe uma separação, um limite entre o seu próprio trabalho com o artista e o trabalho do professor de arte, sendo que os dois se completam. Talvez esse seja um dos pontos mais importantes do seu texto, essa conexão entre o fazer e o pensar, entre o trabalho de criação e o trabalho do professor. Nota-se que os problemas que vão surgindo no trabalho do artista, à medida em que são solucionados, apontam para a descoberta de uma metodologia do ensino do desenho. São essas descobertas, vividas, que levam à elaboração da teoria, que emerge, portanto, da prática.

É muito importante, portanto, no seu raciocínio, o papel da “experiência” que leva à aprendizagem, assim como seu contato com grandes artistas/professores como Amilcar de Castro e Nello Nuno, que resultaram em verdadeiras descobertas, insights, que seriam úteis par£ toda a vida. (Abrindo um parênteses, também Guignard parece se incluir sutilmente e indiretamente nesse grupo). Penso que na experiência de aprendizado, esse tipo de contato pessoal, muitas vezes informal, é às vezes tão ou até mais importante que o aprendizado formal.

Humberto menciona ainda uma relação entre “gesto e ideia”, o desenho como um exercício da sensibilidade. Aponta a singularidade do desenho como ato natural e espontâneo que pode ser traçado tanto nas páginas de uma agenda durante um telefonema quanto num guardanapo de um restaurante, não importando o suporte: “essa singularidade é nascida entre a razão e a mão, razão que induz, que promove uma ação propiciada através do movimento da mão”. Ele descreve, assim as trajetórias da mão habitada por um pensamento e ao mesmo tempo guiada por um olho.

Assim, o desenho: “resulta da interação de um gesto e de um pensamento apoiados em uma visão”. E como Bergson, que falava da inteligência como indo “da mão à cabeça”, podemos dizer: “que o elementar da pintura (do desenho) se encontra aí, na forma come uma visão se transforma em gesto, torna-se ao mesmo tempo movimento da mão e ato do pensamento”.

Reencontro agora Humberto e mais uma vez sua produção me encanta. Também o seu atelier, local privilegiado que ele construiu par; ali trabalhar, torna-se parte da sua obra, onde ele retoma a temática musical, ao se apropriar das partituras de sua mãe e com elas criar trabalho: onde combina colagem, pintura e desenho. A memória é o fio condutor da sua produção atual, que se desdobra também em cadernos de artista onde anotações sobre partituras remetem a uma escrita musical. Assim, na presente exposição o “Noturno” é retomado como tema central e desenvolvido, dando origem a belíssimas colagens e desenhos. Pelas janelas do atelier, uma casa do século XVII inteiramente restaurada por Humberto, vêem-se as montanhas ao redor de Sabará. Elas me fazem lembrar aqueles desenhos a bico de pena, mencionados no início deste texto: muitos anos se passaram, mas a paisagem continua ali, como um pano de fundo para o seu trabalho. Isto me faz pensar que algumas vezes o melhor lugar para se ver o trabalho do artista é o seu atelier, e no caso do Humberto isto é verdade. Montanhas, partituras, memórias, a luminosidade da cidade permeiam seu trabalho, criando um clima perfeito para que ele seja percebido na sua plenitude.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
GUIMARÃES, Humberto Ricardo. Reflexos da memória: do desenho. Belo Horizonte: Escola de Belas Artes da UFMG, 200 . Dissertação de Mestrado em Artes Visuais (Área de concentração: Arte e Tecnologia da Imagem).
MORAVIA, Alberto. Vida de Moravia. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.
PICASSO, Pablo. O pensamento vivo. São Paulo: Martin Claret, 1985.
REY, Jean-Michel. Le tableau et la page. Paris: UHarmatían, 1997.